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Carcavelos: o vinho raro da região de Lisboa

Entre história, oceano e tradição, o vinho de Carcavelos sobreviveu ao tempo e hoje é uma das maiores raridades do vinho português.


Hoje compartilho com vocês um vinho pouco conhecido no Brasil e, talvez, também pouco conhecido em Portugal, considerado por muitos uma verdadeira raridade.


Antes de falar sobre o vinho, sua história e por que ele é tão especial, conto um pouco mais sobre a região de onde ele nasce.


Carcavelos: o vinho raro da região de Lisboa

Carcavelos: o vinho raro da região de Lisboa


A Região de Vinhos de Lisboa


Lisboa é uma das quatorze indicações geográficas de Portugal e possui cerca de 18.600 hectares de área plantada, de acordo com a Wines of Portugal.


A região compreende nove denominações de origem, áreas demarcadas que produzem vinhos em locais específicos e que seguem regras próprias na elaboração.


O nome da região, Lisboa, foi criada e renomeada em 2009, a partir de um pedido dos próprios produtores, com o objetivo de criar uma marca mais forte e com maior apelo comercial no mercado internacional. Anteriormente, era denominada Vinho Regional da Estremadura (ALMEIDA, 2014).


Clima e Terroir da Região de Lisboa


O clima da região de Lisboa é marcado por verões frescos e invernos suaves, muito influenciados pela proximidade com o Oceano Atlântico. As vinhas recebem constantes brisas marítimas, o que contribui para a produção de vinhos mais frescos, com boa acidez e teor alcoólico moderado. E os seus solos são compostos principalmente por argila e calcário.


Entre as uvas que se destacam temos:


  • Uvas Tintas: Aragonês, Castelão, Touriga Nacional, Tinta miúda (ou trincadeira) que geralmente compõe um blend nos vinhos da região com castas internacionais como: Cabernet Sauvignon, Syrah e Alicante Bouschet

  • Uvas Brancas: Arinto, Fernão Pires, Seara Nova e Vital. Entre as uvas brancas internacionais, destaca-se o aparecimento da Chardonnay em algumas zonas. 


As principais denominações de origem (DOC) da região são:


  • Alenquer

  • Arruda

  • Torres Vedras

  • Óbidos

  • Bucelas

  • Encostas d'Aire

  • Colares

  • Lourinhã

  • Carcavelos


Sendo Carcavelos o tema do post de hoje.


CARCAVELOS

Para entender por que esse vinho é tão especial, único e raro, é preciso compreender primeiro de onde ele vem.


A região de Carcavelos pertence ao concelho de Cascais, na área metropolitana de Lisboa, situada na chamada Linha de Cascais, muito próxima do Oceano Atlântico. Trata-se de uma das menores DOCs de Portugal. Aqui, o oceano não é apenas cenário, ele molda e cria o vinho.


Essa proximidade com o mar proporciona vinhos com mineralidade, frescor, boa acidez e estrutura, características que também contribuem para um interessante potencial de envelhecimento.


E este é um ponto importante: embora seja um vinho fortificado e naturalmente doce, o Carcavelos não apresenta a mesma intensidade alcoólica e densidade de vinhos como o Vinho do Porto. Há sempre frescor, tensão e elegância, fatores influenciados pela proximidade com o oceano.


A História do Vinho de Carcavelos


Entre os séculos XVII e XIX, o vinho de Carcavelos era extremamente popular entre as cortes portuguesas e também exportado para a Inglaterra de acordo com o site da própria região/vinícolas - Villa Oeiras.


Portugal e Inglaterra mantiveram ao longo da história fortes alianças políticas e comerciais, e os vinhos fortificados eram ideais para as longas viagens marítimas.


Entretanto, algo mudou. Durante o século XX, especialmente a partir da década de 1980, restaram apenas alguns poucos hectares de vinha. Lisboa expandiu-se rapidamente, e a linha de Cascais, onde Carcavelos está situada, tornou-se uma das áreas residenciais e mais valorizadas. Com a urbanização, muitos vinhedos foram substituídos por construções. O resultado foi dramático: pequenos produtores desapareceram e a produção diminuiu drasticamente. Por isso, mesmo com uma produção quase ínfima, o vinho de Carcavelos é hoje considerado uma raridade.


E é exatamente por esse motivo que o vinho que apresento hoje representa também um exemplo de sobrevivência e resiliência.


O Papel de Marquês de Pombal no Vinho Português


Para entender a história do vinho português, e também de Carcavelos, é impossível não falar de uma figura central do século XVIII: Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como o Marquês de Pombal.


Ele tornou-se uma figura política fundamental após o devastador Terremoto de Lisboa de 1755.


Depois da tragédia, Pombal liderou a reconstrução da cidade, criando o que hoje conhecemos como Baixa Pombalina, um dos primeiros exemplos de planejamento urbano moderno e arquitetura com princípios antissísmicos. Mas Pombal foi mais do que um administrador urbano. Ele também revolucionou o mundo do vinho ao criar, em 1756, a primeira região demarcada e regulamentada do mundo na região do Douro.


Essa decisão introduziu conceitos fundamentais para o vinho moderno:


  • Controle de qualidade

  • Identidade territorial

  • Proteção dos produtores

  • Organização da exportação


Embora Carcavelos não tenha sido demarcada nesse momento, a região acabou se beneficiando do avanço das regulamentações do vinho em Portugal. Assim, o vinho de Carcavelos não representa apenas um estilo de vinho, mas também uma história de preservação e identidade.


Hoje, a produção ocorre na própria quinta onde Marques do Pombal viveu e é extremamente limitada. Grande parte dos esforços para mantê-la viva vem de instituições locais e pequenos produtores comprometidos em preservar essa tradição. Não se trata de produção em massa — trata-se de preservação cultural. E é exatamente isso que torna este vinho tão raro e significativo.


CARCAVELOS: O VINHO RARO DA REGIÃO DE LISBOA:


Ao falar sobre as características do vinho, destaca-se primeiramente a cor que tem: uma cor mais clara do que os vinhos fortificados, como Porto e Madeira, justamente por ser um blend de três uvas brancas autóctones: Arinto, Ratinho, Galego Dourado.


Na linha de vinhos Carcavelos encontramos:

  1. Carcavelos Villa Oeiras estagia sete anos em madeira e custa cerca de 20€.

  2. Carcavelos Villa Oeiras Superior, que estagia em barrica 15 anos custa em média 32€ e

  3. Villa Oeiras Colheita, por fim tem o seu valor em torno de 64€.

  4. Villa Oeiras Tinto 7 anos: Uma versão ainda mais rara do Carcavelos: É também envelhecido em madeira - no total sete anos e com um blend (combinação) de uvas tintas. Por esse motivo tem aromas diferentes das outras versões. Possui notas de frutas secas, como figo e também especiarias.


Todos apresentam notas aromáticas de mel, frutos secos e a depender do estágio em barricas, do tempo de envelhecimento, vão apresentar notas ainda mais complexas e textura em boca ainda mais untuosa e persistente, ou seja com maior tempo de gosto após degustar o vinho.


HARMONIZAÇÃO


Agora vamos à parte que eu mais gosto de compartilhar com vocês: a harmonização.


Como mencionei anteriormente, o Carcavelos pertence à categoria dos vinhos fortificados, ou seja, vinhos que passam por um processo de adição de aguardente vínica durante a fermentação. Neste caso fortifica-se com a própria aguardente de Lourinhã que possui certificado DOP, também. Essa adição interrompe a fermentação e preserva parte do açúcar natural da uva, resultando em vinhos com doçura natural.


Entretanto, quando pensamos em vinho doce, é comum imaginarmos sobremesas para compnhá-los. E sim. Essa é uma harmonização clássica. Mas uma das coisas que eu mais gosto na gastronomia é justamente quando os sabores se contrapõem.


Pense, por exemplo, em algo salgado, cremoso e untuoso, como um queijo curado ou até um presunto. O salgado do alimento contrapõe o doce do vinho — e essa combinação pode resultar em uma verdadeira explosão de sabores. Essa é uma das minhas primeiras sugestões de harmonização — e o melhor: nem é preciso cozinhar.


Além disso:


  • a acidez do vinho equilibra a gordura do queijo ou do presunto

  • a untuosidade do vinho conversa com a textura cremosa do alimento

  • a mineralidade do vinho dialoga com o salgado do queijo


Aqui utilizamos dois princípios clássicos da harmonização:


  • Contraste — quando os sabores se equilibram pelas diferenças.

  • Concordância — quando vinho e comida compartilham características semelhantes de textura e intensidade.


Em breve compartilharei mais opções de harmonização e receitas mais elaboradas.


Se você quiser testar com magret de pato também funcionará perfeitamente. E aqui você confere a minha receita e modo de preparo.


Se você é do time sobremesas, uma clássica sobremesa de ovos portuguesa, ou mesmo o clássico pastel de nata também irá se surpreender e querer repetir para todo o semore. Depois não diga que eu não avisei. ;)


De acordo com o Produtor Villa Oeiras, quando aberta uma garrafa de vinho de Carcavelos Villa Oeiras, a mesma pode ser guardada durante 3 meses sem que o vinho perca as qualidades que o tornam único. O que ajuda a valer ainda mais o investimento feito, certo?


Por fim, não sei se atualmente existe alguma importadora que leve este vinho para o Brasil. Se você souber, me escreva. E se você representa uma importadora, também estou disponível para trabalharmos juntos.


Em Portugal, é possível encontrar o vinho de Carcavelos em boas garrafeiras e lojas especializadas.


No meu Instagram compartilho vinhos que consumo e também receitas que desenvolvo para harmonizar com eles — criar esse tipo de conteúdo faz parte do meu trabalho e se voce tiver interesse em colaborar comigo entre em contato.


Se você encontrar uma garrafa, provar ou testar alguma harmonização, não deixe de me escrever!






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